16 maio 2018

NETTA: A "BALEIA", "ASQUEROSA", "ASSASSINA DE PALESTINIANOS"



" "Obrigada por aceitarem a diferença e a diversidade", palavras de Netta Barzilai ao vencer a Eurovisão. Se por um lado foi o público que a fez ganhar, por outro lado é também o público - provavelmente o que nem se deu ao trabalho de tentar entender as entrelinhas da sua canção - que a tem insultado e agredido, como se de um objeto (um “toy”, portanto) se tratasse. Os cacarejos de Netta são dedicados precisamente a essas pessoas: aos cobardes que insultam porque têm receio do potencial da diversidade. Aos que não compreendem que o respeito, a dignidade e a tolerância são pilares essenciais de um mundo mais equilibrado.
Não era preciso estar muito atento para perceber que “Toy” tinha como motor de arranque o movimento #MeToo. Bastava parar para ouvir um pouco da letra que, enquanto hit fácil de verão, não precisa de poesia erudita para passar uma ideia poderosa: “Eu não sou o teu brinquedo”. Mensagem essa que é dirigida a todos os que assediam e abusam sexualmente dos demais, como se estes fossem simples objetos. Mas não é apenas isto que esta música e respetiva interpretação transmitem. Enquanto mulher, eu não sou o vosso brinquedo, caríssimas indústrias que vivem da objetificação do meu corpo. Eu não sou o vosso brinquedo, caros decisores políticos que continuam a travar o acesso igualitário à participação feminina na tomada de decisões mundo fora. Eu não sou o teu brinquedo, caríssimo mundo com pilares de ordem patriarcal, que continua a ditar expectativas pré-definidas do meu lugar na sociedade só porque nasci mulher. Seja eu a Barbie, a Mulher Maravilha (ambas mencionadas na letra) ou a Netta Barzilai. Podemos não querer ver estas entrelinhas, mas elas estão todas lá. E a equipa de produção musical que fez esta música para a cantora israelita sabia disso, tal como sabia que esta era a altura certa para lançar um tema assim. Fresco, provocatório, atual, e cantado por uma figura que rompe com espartilhos ligados às mulheres.
Provavelmente se esta música fosse cantada por alguém que cumpre as regras estéticas a que estamos habituados, os comentários seriam menos agressivos. Mas não, Netta é gorda e isso parece dar legitimidade aos que não gostam da sua prestação para se dirigirem a ela como “porca gorda”, “lontra”, “filha do boneco Michelin” ou “badocha nojenta”. Ou como “a miúda gordinha vítima de bullying”, descrição que me parece de uma enorme condescendência. Netta é mulher e é gorda (se não temos pudor da palavra magra vamos lá também deixar de ter horror à palavra gorda), extravagante, genuína e enche o palco com a originalidade da sua performance. Netta pouco se parece com a larga maioria das múltiplas artistas consagradas do mundo pop, que vivem amiúde de uma aparência e postura de sensualidade estereotipadas (como algumas das outras concorrentes da Eurovisão). A cantora israelita agita precisamente essas ideias pré-definidas associadas às cantoras pop, e isso não só é bom, como aparentemente o público aplaude.
Netta ousa vestir roupa colorida e espampanante, minissaias e brilhos, quando já se sabe que os cortes sóbrios e os tons escuros, sem padrões, são a melhor opção para “disfarçar as imperfeições”. A questão é que Netta – e muito bem! – não se sente imperfeita (por mais que, sim, tenha sido alvo de bullying ao longo da sua vida por causa da sua aparência). E essa é também parte da sua mensagem. “Eu sou uma criatura bonita”, canta ela em jeito de ode à individualidade, à autoestima, ao fim dos estereótipos que continuam a definir o que as miúdas e as mulheres devem parecer fisicamente para serem dignas da palavra “bonita”. Podemos não gostar da canção, mas é isto que ela transmite. Depois do cinema, da moda e até mesmo da publicidade (que têm agarrado a bandeira da diversidade), é claro que há muita gente a querer encontrar esta mensagem também na música. Não sejamos ingénuos: independentemente de o tema de Salvador Sobral ser incomparavelmente melhor do que o tema “Toy”, parte do seu sucesso e da aceitação do público foi também a diferença e a genuinidade da sua interpretação. Tal como com Conchita, em 2014. E não há nada de mal nisso, pelo contrário.

Cabala política... ou escolha de um povo quer não quer saber da política?

Claro que por ela ser israelita também é muito fácil dizer que esta vitória não passa de uma enorme cabala política. Convém é perceber que isso só poderia fazer algum sentido se a sua vitória tivesse sido dada pelo júri. Mas foi o público (que muito provavelmente se está bem nas tintas para a sua nacionalidade) quem a fez ganhar. Talvez porque sabe que não é o governo facínora de um país que dita a idoneidade de todo um povo. Se assim fosse, todos os norte-americanos eram pessoas da estirpe duvidosa de Donald Trump. Todos os iranianos, os russos, os venezuelanos, os chineses e demais cidadãos a viver em países liderados por verdadeiros párias seriam párias também. E deveriam ser excluídos. Escusado será dizer que isto é uma forma mesquinha e redutora de olhar para o mundo, e que não faz qualquer sentido.
Quanto ao facto de Netta Barzilai ter cumprido o serviço militar, que em Israel é obrigatório para homens e mulheres, isso não faz dela uma “assassina de palestinianos”, como também já ouvi e li por aí (haja pachorra). É certo que a cantora não aproveitou a visibilidade para fazer diretamente um statement político. Nem tinha a obrigação de o fazer, verdade seja dita. Contudo, a sua mensagem ao receber o prémio pode perfeitamente ser um recado a todos os países da competição, incluindo Israel: aceitar e celebrar a diferença é essencial.
Se há algo que tem o condão especial de aproximar pessoas e de esbater diferenças, é mesmo a música. Não manchemos essa capacidade única com ódio, desrespeito e demagogia barata, por favor."





por: Paula Cosme Pinto , aqui.

Um comentário:

  1. Por muita razão que tenham estas palavras - até porque abomino qualquer tipo de bullying - vou continuar a dizer que esta música é terrível. A rapariga tem uma voz brutal (como demonstrou noutros momentos) mas a música em nada a favoreceu. Infelizmente há pessoas que decidem logo atacar o físico da pessoa mas não há motivos para isso. Por exemplo, a rapariga do Chipre é magra e no entanto também odiei a música. A aparência dos músicos a mim passa-me ao lado que também estou na música e, por acaso, até sou gordinha. O que me importa é ouvir algo bem construído. Infelizmente na Eurovisão a questão é, quase sempre, política. Veremos como decorre o próximo festival.

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